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Encontro internacional de Cafés com Paulo Freire reafirma legado do educador popular

O auditório do Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato), em Porto Alegre, recebeu, na sexta-feira (24), o encontro internacional de Cafés com Paulo Freire. Promovida pelo Centro de Assessoria Multiprofissional (CAMP), a atividade reuniu educadores, estudantes, militantes e trabalhadores em torno da atualidade do pensamento do educador popular. A celebração marcou os oito anos da Rede Internacional Café com Paulo Freire, iniciativa que mantém vivo o legado do educador por meio do diálogo, da escuta e da construção coletiva de saberes.

Inspirado na máxima freireana “me recriem”, o encontro reforçou não apenas a preservação da obra de Freire, mas também reinvenção do educador diante dos desafios contemporâneos. Em um contexto de disputas sobre o papel da educação e de aprofundamento das desigualdades sociais, o evento se consolidou como espaço de formação crítica e mobilização.

A atividade teve início com os “Tambores de Freire”, conduzido pelo professor Nilson Tókunbò, do Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores Paulo Freire (CMET). Em seguida, o público ecoou o Hino do Café com Paulo Freire, apresentado por Leandro Maia e Maria Falkembach, representantes do Café Garopaba, de Santa Caratina, e da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), marcando o tom simbólico e coletivo do encontro.

Ato político

Na abertura do ato político, a coordenadora do CAMP, Daniela Tolfo, destacou o significado do momento. Segundo ela, reunir referências da educação popular é, ao mesmo tempo, “uma honra” e um “grande compromisso político”. Tolfo ressaltou a importância de garantir que os recursos cheguem às bases e celebrou a articulação nacional da rede. “É um trabalho incrível que vocês fazem no Brasil inteiro”, afirmou, destacando também o protagonismo de educadoras e educadores, além do papel coletivo da equipe envolvida na organização.

A dimensão histórica da preservação do legado freireano foi retomada por Erivalda Torres, presidenta do Centro Paulo Freire – Estudos e Pesquisas, Universidade Federal de Pernanbuco (UFPE). Ela relembrou que a instituição nasceu após a morte de Paulo Freire, a partir da mobilização de pessoas próximas ao educador. “Pensou-se na necessidade de ter algo para manter viva a memória de Freire”, explicou, destacando a importância de institucionalizar esse esforço.

Gladis Kaercher, da Uniafro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e do Conselho Estadual de Educação do RS (CEEd/RS), definiu a Rede Internacional Café com Paulo Freire como “absolutamente feminina e feminista”, comprometida com lutas antirracistas, contra o patriarcado, a misoginia e as violências. Kaercher também provocou uma reflexão sobre o futuro. “Quais são os sonhos que ainda são possíveis na rede?”, questionou, apontando para a construção coletiva de novos “inéditos viáveis”.

Representando o Conselho de Educação Popular da América Latina e Caribe (CEAAL Brasil), Mariana Marques destacou a dimensão organizativa da articulação. Segundo ela, o coletivo reúne mais de 30 organizações, sendo o Café com Paulo Freire um dos protagonistas, inclusive na coordenação nacional do grupo, evidenciando a capilaridade da rede em diferentes territórios.

A ex-ministra dos Direitos Humanos Macaé Evaristo participou do ato por meio de vídeo e saudou a Rede de Cafés com Paulo Freire. “A educação sozinha não é capaz de mudar o mundo, mas as pessoas conseguem mudar o mundo. Nossa tarefa é reafirmar a humanidade de cada um e de cada uma, e fazemos isso em coletividade e em rede. Este é um espaço onde podemos esperançar o mundo, na construção de dias mais solidários, de respeito, de cultura de paz e da amorosidade que Paulo Freire nos ensinou.”

Pedro Pontual, secretário-geral da Presidência da República, reforçou o caráter transformador da rede ao afirmar que os Cafés com Paulo Freire materializam, na prática, o conceito freireano de “inédito viável”. “A rede de Cafés com Paulo Freire não é só um inédito viável, são diversos inéditos viáveis”, disse. Segundo ele, as experiências compartilhadas mostram como, a partir de situações-limite — como a pandemia e, mais recentemente, as enchentes no Rio Grande do Sul —, surgem iniciativas concretas que mantêm viva a utopia. “Não se perde a visão do horizonte, da utopia possível”, destacou.

A deputada federal licenciada Reginete Bispo (PT/RS) encerrou as falas destacando o caráter acolhedor do encontro. Para ela, o evento representa um “espaço seguro” de escuta e expressão. “É um espaço de muita afetividade, importante e transformador”, disse, relacionando a experiência ao princípio freireano do diálogo e do acolhimento.

Construindo o bem viver

Integrando o projeto “Produção da Gente: construindo o Bem Viver através da Economia Popular Solidária”, desenvolvido pelo CAMP em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego, o ato também reforçou a conexão entre educação popular e economia solidária como caminhos para uma sociedade mais justa. Com apoio parlamentar de Reginete Bispo, Maria do Rosário e Alexandre Lindenmeyer, a iniciativa aponta para a construção do bem viver como horizonte político e social.

Durante o encontro, houve uma homenagem a Liana Borges, educadora popular e doutora em Educação, reconhecida como uma das idealizadoras e coordenadoras da Rede Internacional Café com Paulo Freire.

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