Representantes do FSM 2016 no Canadá e do Fórum Temático de Porto Alegre se reúnem na Capital

Em 2016, pela primeira vez em sua história, o Fórum Social Mundial vai migrar para o norte. Depois de passar por Brasil, Venezuela, Mali, Paquistão, Quênia e Tunísia, a próxima edição do evento organizado por movimentos sociais como contra-ponto ao Fórum Econômico de Davos, terá como sede Montreal, no Canadá. Nesta segunda-feira (6), representantes da comissão organizadora canadense estiveram em Porto Alegre para convidar a Prefeitura para o evento de agosto e articular o diálogo entre o Fórum Mundial e o Fórum Temático, marcado para janeiro na capital gaúcha.

O Canadá defendeu durante três anos a proposta de receber um Fórum junto ao Conselho até ser aprovada. Carminda MacLorin, música e co-facilitadora de relações do FSM 2016, que esteve em Porto Alegre, explica a candidatura da América do Norte. “O que queremos é reafirmar que o paradigma norte e sul está mudando e não se pode considerar da mesma maneira. Há norte no sul e há sul no norte. Temos um sistema que é transversal, neoliberal, capitalista, que tem efeitos nefastos tanto no norte, quanto no sul”, diz.

A Comissão organizadora do FSM 2016 já conta com o envolvimento de 150 movimentos sociais canadenses, mas pretende chegar a ainda mais grupos. A preocupação dos organizadores é que todos consigam espaço igual de participação e visibilidade durante o evento, independente de tamanho ou articulação. A questão de concessão de vistos, uma das críticas à candidatura de Montreal, está sendo trabalhada junto ao governo, mas não haverá vistos especiais para participantes.

A resposta dada pelo governo é de que metade dos vistos negados é por questões econômicas e a outra metade por erros no preenchimento de formulários e por serem solicitados com pouco tempo de antecedência da data de viagem. Para isso, a organização tenta trabalhar com voluntários pelo mundo que possam auxiliar participantes no encaminhamento de papéis e terá ainda um fundo solidário para juntar dinheiro suficiente para manter as exigências econômicas. Além do apoio de organizações internacionais, o fundo vai contar ainda com colaboração através de financiamento coletivo. O crowdfunding estará disponível a partir de setembro no site do FSM 2016.

Para Carminda, há ainda outro ponto que foi catalisador para a candidatura canadense e que pode ser um diferencial na edição em Montreal: o fator da juventude.

Protestos de 2012 levaram mais de 200 mil pessoas às ruas de Montreal | Foto: Reprodução/CTV NEws

Em abril de 2012, Québec viveu sua própria versão de Primavera. Milhares de estudantes, aproveitando a tradicional Marcha do Dia da Terra, saíram às ruas para protestar contra acordos que aumentavam os custos de educação no país. “Houve uma convergência de lutas, os cartazes dos estudantes andavam junto com os cartazes de meio-ambiente”, lembra Carminda que também participou das manifestações. O governo local respondeu à movimentação com repressão policial. Segundo a Anistia Internacional, que denunciou as violações aos direitos humanos em campanha, em 40 dias, 2 mil pessoas foram presas. Junto à população, no entanto, a repressão teve efeito contrário: pais e outros cidadãos se juntaram aos protestos em apoio aos estudantes, contra o governo da província.

Segundo Carminda, a jornada da Primavera Québécoise ajudou a despertar consciência política numa geração que estava adormecida e criou a tradição de lutas recentes na parte francesa do país, que se tornou terreno para o Fórum. Antes de começar a trabalhar com a ideia da edição mundial, pessoas ligadas ao Coletivo responsável pelo evento, participaram de outros fóruns e chegaram a organizar dois fóruns regionais em Québec.

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Povos indígenas e crise ecológica no centro da aldeia global

Embora o Fórum abra espaço para diversas temáticas – desde educação, saúde e pobreza até questões de gênero e economia social –  em 2016 o foco vai estar nas questões ambientais e nos direitos de povos indígenas.

Segundo Carminda, enquanto o Canadá apresenta uma imagem internacional de tranquilidade e desenvolvimento, a realidade nem sempre é assim. O país hospeda as maiores mineradoras do planeta e está presente em 80% dos projetos de mineração, além de explorar o fracking – processo de retirada de gás natural através de fraturação hidráulica, contestado pelos danos ao meio-ambiente. “São consequências que se sentem por todos os lados, mas também dentro do próprio país”, analisa Carminda.

A questão de violações de direitos de povos originários do Canadá está mais visível e voltou a superfície dos debates nos últimos anos. Especialmente com iniciativas como a Idle no more – que defende soberania dos povos e direitos da água – e campanhas como No More Stolen Sisters (Sem mais irmãs roubadas) – que denuncia os desaparecimentos de mulheres indígenas, ignorados pelo governo canadense. Carminda MacLorin, filha de mãe salvadorenha e pai francês, explica ainda que como a História da colonização faz parte do passado recente, o trauma e estigma ainda são sentidos. “Nos anos 1950, crianças de comunidades autóctonas eram retirados dos pais, deixando comunidades inteiras sem filhos”, diz ela. Em Montreal, assim como é parte da realidade brasileira, sem ter suas terras demarcadas, é comum encontrar indígenas em situação de rua, enfrentando problemas de alcoolismo, drogas e jogos.

Esses temas se somarão às novidades da política internacional como o governo do Syriza, na Grécia, e a ascensão do Podemos, na Espanha. O slogan oficial ganhou uma atualização. Ao invés do tradicional “Um outro mundo é possível” passa para: “Outro mundo é necessário, juntos é possível”. “A democracia como existe no mundo, em geral, é uma pequena farsa. Pra não dizer grande. Estamos desresponsabilizando as pessoas com o dever de ir votar, depois podem se sentar outra vez em frente à televisão, com as mãos segurando a carteira, e pronto ‘já sou um cidadão’. Isso não é ser cidadão, isso não é participar da democracia. Creio que com esses novos partidos, com mais participação, com essas lideranças diferentes do que estamos acostumados possamos ver algo diferente”, analisa Carminda MacLorin.

Audiência com organizações sobre o Fórum Social Mundial 2016 Local: Gabinete do prefeito | Foto: Ivo Gonçalves/PMPA

Porto Alegre terá edição temática em janeiro de 2016

Na reunião com o prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, realizada na tarde de segunda-feira, além da entrega do convite, os organizadores aproveitaram para  discutir metodologia e integração entre os dois Fóruns do ano que vem.

Segundo Mauri Cruz, da Ablong, os organizadores do Fórum Social Temático de Porto Alegre também aproveitaram para formalizar para a prefeitura o pedido dos espaços e apoio para o o evento. A proposta é centralizar o Fórum no Parque Farroupilha, a Redenção, e realizar eventos no Auditório Araújo Vianna. Dois espaços públicos que têm sido alvo de polêmicas recentes com a discussão sobre o cercamento do parque e a terceirização do teatro. “A ideia do Fórum acontecer ali já tem um simbolismo. Houve um aceno positivo da Prefeitura de gestionar a liberação do Araújo e gestionar para que a gente possa usar o parque. Mas isso é uma discussão mais interna do Fórum”, afirma Mauri.

No ano em que o Fórum completa 15 anos, a organização estima receber um público entre 15 e 20 mil pessoas. “Tem todo um cenário internacional diferenciado, muito parecido com 2001 quando o Fórum começou. Porque o Fórum é isso, a gente se propõe a organizar e cria as condições, o que vai acontecer… É um evento autogestionário”.

Os ex-presidentes Pepe Mujica e Luis Inácio Lula da Silva, respectivamente do Uruguai e do Brasil, o historiador Boaventura de Sousa Santos e o teólogo Leonardo Boff são os nomes já confirmados no evento. Além deles, participações de representantes da Grécia, Estados Unidos e Canadá também vão estar em Porto Alegre. De acordo com Mauri, uma das grandes expectativas da programação é a vinda do Presidente da Bolívia, Evo Morales. Em 2002, ainda um líder indígena, Morales não pode participar do Fórum porque ficou detido em seu país pelo então governo.

O Fórum Social Temático de Porto Alegre ocorre de 25 a 29 de janeiro de 2016. Dúvidas e questões sobre o Fórum Social Mundial de Montreal podem ser enviadas a página do Facebook ou ao email: info@fsm2016.org

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 + 2 =