O filho de colono e a casa comum

Na vida, a gente precisa agarrar-se ou ancorar-se em alguns princípios e valores básicos, nas suas origens e raízes. E dizem que o bom filho à casa sempre torna. Sou com muito orgulho filho de colono, papai Léo, falecido, e de colona, mamãe Lúcia, ainda trabalhando nos seus 88 bem vividos. (Na região Sul, colono significa o trabalhador dos núcleos coloniais, estabelecimentos agrícolas criados pelo governo para abrigo, moradia e trabalho de imigrantes, especialmente alemães e italianos, sendo proprietários de seu lote. Uma colônia, como no caso do avô José e de papai, e que se mantém até hoje, é uma área de 25 hectares. Colonas e colonos é o correspondente a agricultoras e agricultores familiares. Através da Lei Federal nº 5496, de 5 de setembro de 1968, o dia 25 de julho é considerado o ‘Dia do Colono’, celebrado e festejado com as Festas do Colono nas comunidades e municípios.)

Saí de casa aos onze anos de idade, no início dos anos 1960, para o Seminário dos Franciscanos. Nunca mais voltei definitivamente. Mas as férias permitiam voltar para a roça, conhecer o nome dos bois e vacas que davam leite, puxavam o arado e acabavam virando churrasco, conhecer o nome dos cachorros, que em geral morriam de velhos (hoje é o Max; o anterior, o Totó, resolveu atacar o sobrinho Gabriel e teve que ser despachado), enfrentar as agruras do inverno e buscar pasto, cortar cana e tirar leite no frio e na geada, ajudar a colher, secar e sortir fumo/tabaco no verão, cortar soja com foice no veranico de maio, colher uvas no parreiral de casa para fazer o vinho caseiro, cuidar de galinhas e porcos, que davam a comida, o sustento e os necessários recursos para pagar os estudos do Seminário e sustentar mais oito irmãos, tirar goiabas, ameixas, bergamotas, laranjas, butiás, abacaxis, ariticuns, pinhões direto dos pés, colher legumes e verduras em quantidade, nunca menos de cinco tipos diferentes na mesa, comer das tortas, doces, cucas e guloseimas feitas por tia Leonida e servidas no Natal, na Páscoa e nos Kerb de junho, dia de São Luiz, o padroeiro, falar alemão e só alemão no cotidiano e até hoje com mamãe.

A natureza faz parte do corpo e da vida. A começar pelo bosque ao lado de casa, onde fazíamos piqueniques e reuníamos as enormes famílias de tios e tias, primos e primas nos aniversários da vó Gertrudes, passando pelo riacho de um dos lados da propriedade, onde pescávamos lambaris e suas águas serviam de refresco no calor de janeiro, e a mata intocada nos fundos da colônia, cheia de árvores centenárias e banhada por outro riacho. O verde, para sempre, faz parte da pele e do olhar. A Mãe Terra, como fala o Papa Francisco, está no centro da vida, é a casa comum.

Além da família, havia e há a vida de comunidade, entranhada na alma e no coração. Não se vive como colona e colono, como filho de colono e colona sem a comunidade eclesial e a igreja, sem a comunidade/sociedade que, naqueles tempos, tinha como atração principal as festas o jogo de bolão, hoje as festas, o futebol de campo e o futebol de salão. É onde se encontram e reúnem as pessoas, conversam sobre a vida, trocam esperanças, começam namoros, cultivam a solidariedade e as relações fraternas, onde vivem juntos e constroem o que mais vale a pena, que não é o dinheiro, mas o bem-estar de todas e todos e a fraternidade. E ainda há a escola, então mantida pela própria comunidade, que a construiu e pagava o único professor, e era acompanhada diretamente pelos pais como um bem seu. (Os nove filhos de papai Léo e mamãe Lúcia, morando no interior no interior, têm pelo menos o segundo grau completo.)

Atualmente, não se precisa mais de bois, carroças e arados puxados por uma dupla na canga, e pedir ‘hoit’, para virar à direita, ‘haar’, virar à esquerda (e eles obedeciam). As políticas públicas dos governos, especialmente do federal, dando prioridade para a agricultura familiar, já permitem a compra de tratores, entre outros benefícios e resultados de uma melhor condição e qualidade de vida. Há um problema central, porém. Olhando hoje os vizinhos de mamãe Lúcia, vê-se que poucos têm sucessão e garantia de continuidade de sua história. Os filhos, hoje poucos, foram-se para outras paragens. Quem plantará no futuro, nas próximas décadas? Quem garantirá o sustento e a comida na mesa de brasileiras e brasileiras, que vêm do suor e do trabalho de colonas e colonos em mais de 70%? Quem garantirá alimentos saudáveis, sem venenos, não transgênicos, plantados no frescor da terra e cuidados com o olhar amoroso de quem os cuida e rega todos os dias?

Santa Emília, comunidade onde nasci e cresci, no município de Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, está festejando seus 150 anos de história em 2015. Sesquicentenário. Haverá desfiles temáticos, recuperação da história e da memória, escolha de Rainhas e Princesas, celebrações religiosas, inauguração de placas, culminando em grande festa dias 5 e 6 dezembro no Ginásio Luizão, da Sociedade São Luiz.

Quem pode querer raízes melhores? Se sou o pouco que sou, é por ser filho de colona e colono. E por poder celebrar no 25 de julho, Dia do Colono, mais que uma história. Festejar, sim, um tempo de felicidade, festejar valores que o mundo precisa: a solidariedade, o fazer junto, a comunidade, o respeito a todas e todos, o acolhimento, a fé, a oração, a esperança, vivida e construída comunitária e coletivamente, de um mundo melhor e de uma casa comum.

Por: Selvino Heck é Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República

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