Há 25 anos Porto Alegre apontava os caminhos para o mundo

O Fórum Social Mundial, a democracia participativa e o legado de uma cidade referência internacional

 

Há 25 anos, Porto Alegre era vista pelo mundo como um símbolo de democracia viva, participação popular e esperança de progresso social. A cidade não apenas sediou o primeiro Fórum Social Mundial, como encarnava, na prática, os valores que o evento defendia: diálogo, inclusão e protagonismo da população nas decisões públicas. Era um tempo em que Porto Alegre respirava democracia e projetava para o mundo a ideia concreta de que outro modelo de cidade, e de sociedade, era possível.

A escolha da capital gaúcha para sediar o primeiro Fórum Social Mundial, em 2001, esteve longe de ser casual. Nos anos 1990, Porto Alegre havia se tornado referência internacional com a experiência do Orçamento Participativo, que colocava a população no centro da definição das prioridades do poder público. Como recorda Tarso Genro, então prefeito da cidade, que ressalta que a decisão de sediar o Fórum partiu do reconhecimento internacional dessa experiência democrática. “O processo de escolha foi feito de fora para dentro do Governo Municipal, levando em consideração que a gestão do PT, em Porto Alegre, desde o início da gestão do Olívio Dutra, transformava a democracia liberal, no âmbito dos governos locais, em democracia participativa de alta intensidade, com visível inversão de prioridades”, explicou Genro.

Esse contexto local dialogava com um cenário internacional marcado pela hegemonia do pensamento único e pela ideia de que o capitalismo não teria alternativas. “O primeiro Fórum aconteceu em 2001, no Rio Grande do Sul, a partir da iniciativa de organizações como ABONG, MST e Instituto Paulo Freire, em diálogo com os governos de Olívio Dutra e Raul Pont. Criado em um contexto pós-queda do Muro de Berlim, o Fórum propôs uma alternativa internacionalista ao discurso de que o capitalismo não teria alternativas. Com uma dinâmica autogestionada, o evento cresceu rapidamente: planejado para 5 a 6 mil pessoas, reuniu 20 mil na primeira edição, mais de 50 mil na segunda e ultrapassou 80 mil participantes na terceira”, lembra Mauri Cruz, membro do Coletivo Brasileiro e do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial.

Em contraponto ao Fórum Econômico de Davos e ao avanço do neoliberalismo, o Fórum Social Mundial nasceu no Sul Global, em uma cidade que simbolizava, na prática, a possibilidade de uma administração pública comprometida com justiça social, igualdade e solidariedade. Ao aceitar o desafio de sediar o evento, Porto Alegre se colocou no centro do debate mundial sobre democracia e alternativas ao modelo econômico dominante. “Aceitamos com honra o desafio de organizarmos o Fórum, lançando Porto Alegre no espelho do mundo como uma grande experiência de gestão pública, transferida para centenas de cidades em todo o mundo”, afirmou Tarso Genro.

A cidade reunia as condições políticas, simbólicas e organizativas para esse protagonismo. Governos comprometidos com a participação popular, forte presença de movimentos sociais e sindicais, universidades engajadas, espaços públicos vivos e intensa vida política tornaram possível a realização de um evento que reuniu representantes de mais de uma centena de países. O Fórum Social Mundial transformou Porto Alegre em um ponto de encontro global das lutas sociais e das utopias coletivas.

Esse reconhecimento internacional não foi vivido como ocasional por quem estava à frente do processo. Havia consciência política do caminho escolhido e do significado daquela experiência democrática. “Não recebemos com surpresa, mas com orgulho, porque estávamos conscientes do que fazíamos desde o primeiro minuto em que chegamos ao Governo em Porto Alegre”, concluiu Tarso Genro.

Com o passar dos anos, o Fórum Social Mundial se internacionalizou, deixou de ter sede fixa e passou a refletir um mundo mais fragmentado e complexo. Ainda assim, não perdeu relevância, embora tenha passado por mudanças importantes. Essas transformações também dialogam com mudanças profundas no cenário político internacional.

“O Brasil e o mundo que deram origem ao Fórum Social Mundial não existem mais. Naquela época, sob o governo Fernando Henrique Cardoso e o pensamento único dominante, o Fórum representava uma alternativa internacionalista e crítica ao neoliberalismo. Hoje, as pautas da esquerda se ampliaram, incorporando dimensões humanistas, ambientalistas e de justiça social, reconhecendo o impacto da escravidão e da exploração das mulheres na formação do capitalismo. A tecnologia e os avanços científicos também permitem novas possibilidades de bem-estar coletivo, reforçando a ideia de que outro mundo é possível”, reflete Mauri Cruz.

Ainda assim, a origem do Fórum permanece como um marco histórico incontornável, especialmente para Porto Alegre, que por muito tempo carregou o reconhecimento de ser uma cidade aberta ao diálogo, à diversidade e à participação cidadã.

Hoje, no entanto, a cidade vive dias de obscuridade. O modelo de gestão que transformou Porto Alegre em referência mundial foi sendo desmontado, dando lugar a um governo excludente e cada vez mais distante da população. Sob as últimas administrações, a participação popular deixou de ser prioridade, e as decisões passaram a ser concentradas, sem escuta efetiva da sociedade. A cidade que já foi exemplo de democracia convive agora com o esvaziamento dos espaços participativos e com a negação do diálogo como método de governo.

Resgatar a memória dos 25 anos do primeiro Fórum Social Mundial é mais do que uma celebração histórica. É um exercício político e coletivo de lembrar à população que Porto Alegre já foi uma referência mundial de administração popular, fraternidade, igualdade e solidariedade. Em um cenário de profundas crises sociais, ambientais e democráticas, recordar esse passado é também reafirmar que ele não foi um acaso e que outro futuro continua sendo possível.

Foto / Reprodução FSM

Fonte: https://www.sindbancarios.org.br/noticia/13767/ha-25-anos-porto-alegre-apontava-os-caminhos-para-o-mundo

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