Economia solidária fortalece autonomia e renda de mulheres negras no Rio Grande do Sul

Iniciativas coletivas ampliam oportunidades de venda e formação para enfrentar desigualdades em territórios periféricos

Fabiana Reinholz e Marcelo Ferreira

Brasil de Fato | Porto Alegre (RS) | 26.jan.2026

Além de organizar redes de empreendedorismo, Fórum Estadual das Mulheres Negras da Economia Popular Solidária (Fespope) conta com loja no centro de Porto Alegre
Além de organizar redes de empreendedorismo, Fórum Estadual das Mulheres Negras da Economia Popular Solidária (Fespope) conta com loja no centro de Porto Alegre | Crédito: Rafa Dotti

 

Inspiradas na filosofia africana Ubuntu, “eu sou porque nós somos”, mulheres negras do Rio Grande do Sul constroem, há anos, alternativas coletivas de geração de renda, autonomia econômica e enfrentamento às desigualdades estruturais. A atuação da Rede Ubuntu, do Fórum Estadual das Mulheres Negras da Economia Popular Solidária (Fespope) e de iniciativas como o projeto Economia Popular Solidária com Mulheres Negras: Empoderamento e Bem Comum revela como a economia solidária tem sido instrumento de sobrevivência, resistência e emancipação.

Integrante da coordenação do Fespope, Gilciane Neves, a Gil, explica que a Rede Ubuntu surgiu da necessidade de impulsionar empreendimentos da economia popular solidária, especialmente de mulheres negras, povos tradicionais e comunidades periféricas. “A Rede foi construída coletivamente como um espaço de cooperação, troca de saberes e fortalecimento econômico”, afirma.

Segundo Gil, essa construção coletiva possibilitou acesso a mercados, visibilidade para produtos e serviços e a venda direta, sem atravessadores. “A economia pode ser um instrumento de emancipação, não apenas de sobrevivência. Muitas mulheres passaram a complementar ou garantir a renda familiar por meio de feiras e ações coletivas e da divulgação em rede”, destaca.

Menores salários e alta informalidade entre mulheres negras

Dados do boletim especial “Mulheres negras acumulam funções e discriminações no trabalho”, elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e divulgado em 2025, revelam a dimensão das desigualdades enfrentadas por mulheres negras no Brasil.

Atualmente, 24 milhões de lares são chefiados por mulheres negras, que recebem, em média, 53% menos que os homens brancos. Essa diferença representa R$ 30,8 mil a menos por ano no rendimento dessas trabalhadoras. Entre pessoas ocupadas com ensino superior, a desigualdade é ainda maior, com uma diferença média anual de R$ 58 mil. Além disso, 39% das trabalhadoras negras estão na informalidade, sem acesso a direitos trabalhistas.

Economia solidária como estratégia de sobrevivência

Artesanato reforça ancestralidade | Crédito: Rafa Dotti

 

Diante desse cenário, a economia solidária tem papel central na geração de renda e na sustentação das famílias. O Dia Nacional da Economia Solidária, celebrado em 15 de dezembro, foi instituído pela Lei nº 13.928/2019. Já a Lei nº 15.068/2024 criou a Política Nacional de Economia Solidária, estabelecendo um marco regulatório voltado à ampliação do acesso a crédito e ao fomento de cooperativas e associações.

O Relatório Sem Parar 2025, elaborado pela Sempreviva Organização Feminista (SOF), em parceria com a Gênero e Número e com apoio do Ministério das Mulheres, aponta que 80% das mulheres que vivem da economia solidária são as principais responsáveis pela renda familiar. A pesquisa também retoma dados de 2020, quando 61% das mulheres participantes da economia solidária eram negras. Segundo o Sebrae, mulheres negras representam 24% dos empreendedores no Brasil.

As reivindicações do Manifesto Econômico da Marcha das Mulheres Negras 2025 reforçam esse diagnóstico ao defender o fortalecimento do empreendedorismo negro e a expansão da economia solidária. O documento destaca que mulheres negras constroem estratégias próprias de sobrevivência e sustentação comunitária por meio da formalização de pequenos empreendimentos e da organização de redes solidárias, e afirma que cabe ao Estado reconhecer e apoiar essas iniciativas com financiamento, formação, tecnologia e canais de comercialização, valorizando cooperativas, associações e experiências comunitárias.

Rede de apoio em tempos de crise

Durante a pandemia da covid-19, a Rede Ubuntu teve papel central na manutenção da renda de inúmeras famílias. Com a suspensão das feiras presenciais, as mulheres organizaram feiras virtuais, vendas pelas redes sociais e estratégias coletivas de entrega. “Esse apoio foi essencial para mulheres que perderam empregos formais ou ficaram sem renda”, relembra Gil.

Ela ressalta que a rede segue sendo estratégica no cenário atual. “Não é apenas um grupo de WhatsApp ou um espaço de venda. É um espaço de apoio emocional, formação e resistência coletiva diante das desigualdades estruturais”, afirma.

“Não existe empoderamento das mulheres sem empoderamento econômico”, avalia Gil Neves | Crédito: Arquivo pessoal

Autonomia econômica como ferramenta de libertação

Para a militante, a economia solidária contribui diretamente para a autonomia econômica das mulheres negras. “Ter uma fonte própria de renda significa independência, poder de decisão e dignidade. A autonomia econômica nos protege de relações abusivas, fortalece nossa autoestima e amplia nosso poder de escolha”, diz. Para ela, não há empoderamento possível sem independência financeira. “Não existe empoderamento das mulheres sem empoderamento econômico.”

No Rio Grande do Sul, estado marcado por profundas desigualdades raciais, o empreendedorismo negro e a economia popular solidária cumprem papel central no enfrentamento dessas assimetrias. “Esse modelo valoriza saberes ancestrais, a cultura negra, o trabalho coletivo e a justiça social. Diferente do empreendedorismo tradicional, que prioriza o lucro individual, a economia solidária trabalha com cooperação, autogestão, comércio justo e divisão de saberes. Aqui ninguém cresce sozinho. Crescemos juntas”, afirma.

Uma trajetória construída na organização popular

A caminhada de Gil na economia solidária começou em 2002, na vila Cruzeiro, em Porto Alegre, a partir da Organização de Mulheres Negras Maria Mulher. Desempregada à época e cansada das violências vividas como trabalhadora doméstica, ela encontrou na organização coletiva uma alternativa concreta de vida. “As mulheres precisavam trabalhar de dia para comer de noite. Não conseguiam ficar só estudando. Foi aí que conheci a economia solidária como alternativa de geração de renda”, relata.

Em 2003, participou da criação da primeira feira de economia popular solidária da Grande Vila Cruzeiro, periferia de Porto Alegre, reunindo artesanato, bijuterias, brechó e atrações culturais. Desde então, segue atuando na construção dessa economia. “Criei meus três filhos a partir do trabalho autogestionado, cooperado e organizado. Acredito que é possível uma outra economia, com menos exploração e mais respeito às pessoas.”

Fespope: coletividade, formação e visibilidade

Fespope surge da organização coletiva de mulheres negras de diferentes territórios do estado. O espaço atua na articulação política, formação, defesa de direitos e ampliação do acesso às políticas públicas. “É um espaço de resistência, empoderamento, construção de futuro e valorização financeira do nosso trabalho”, define Gil.

Atualmente, o fórum reúne cerca de 60 mulheres. Parte delas integra a Loja Fespope, espaço colaborativo no centro da capital gaúcha coordenado por artesãs como Lisbete do Santos Pinheiro, também integrante da coordenação.

Economia solidária como aprendizado coletivo

“Tudo fica mais fácil quando estamos em coletividade”, afirma Lisbete do Santos Pinheiro | Crédito: Rafa Dotti

 

Artesã há mais de 35 anos, Pinheiro afirma que a economia solidária transformou profundamente sua forma de compreender o trabalho e o empreendedorismo. Embora conheça esse modelo há mais de 20 anos, ela destaca que o aprendizado acontece de forma gradual, a partir da vivência coletiva. “É tudo um processo. Aos poucos, a gente vai entendendo o quanto a coletividade te fortalece, o quanto cria novas oportunidades e o quanto a troca de saberes, e até de problemas e dificuldades, facilita tudo”, relata.

Foi esse entendimento que levou a artesã a deixar o trabalho individual no Brique da Redenção para se dedicar integralmente à economia solidária. Para ela, a força da coletividade amplia possibilidades que dificilmente seriam alcançadas de forma isolada. “Tudo fica mais fácil quando estamos em coletividade”, defende.

Pinheiro também aponta que a economia solidária se coloca como um contraponto direto ao sistema econômico tradicional. “É um sistema que não valoriza o trabalhador, não valoriza o meio ambiente e não entende que somos um ciclo que precisa ser trabalhado em conjunto para que todo mundo cresça.”

Ela relembra ainda a construção do Fespope, idealizado por ela, Gilciane e outras mulheres negras, e destaca um dos momentos mais simbólicos do fortalecimento coletivo: o primeiro Novembro Negro organizado pelo Fórum. “Conseguimos cerca de 100 espaços de exposição para as mulheres. Sozinhas, isso não seria possível. A gente se dividiu, botou mesa aqui, botou produto ali, e assim fomos criando novas possibilidades”, conta.

Para Pinheiro, o principal ensinamento da economia solidária é crescer de forma coletiva, compartilhando saberes, fortalecendo redes e valorizando o trabalho. “A economia solidária te agrega, te dá novas possibilidades de crescer e te fortalece enquanto grupo”, conclui.

Desafios e políticas públicas

Apesar dos avanços, o cenário do empreendedorismo negro no Rio Grande do Sul ainda é marcado por obstáculos estruturais, como a dificuldade de acesso a crédito, a precariedade das políticas públicas e os desafios de mobilidade enfrentados por mulheres que vivem em territórios periféricos.

Nesse contexto, o projeto Economia Popular Solidária com Mulheres Negras: Empoderamento e Bem Comum, desenvolvido pelo Centro de Assessoria Multiprofissional (Camp), atua para fortalecer o protagonismo econômico das mulheres negras por meio de formações, acesso a equipamentos, insumos e feiras em áreas centrais da cidade.

Os resultados já são visíveis. Participantes relataram que a produção com os equipamentos adquiridos aumentou, a renda melhorou e as redes de apoio entre comunidades ampliaram. A principal reivindicação, agora, é a continuidade das ações, partindo do princípio de que formação permanente e espaços de venda são fundamentais para garantir a sustentabilidade dos empreendimentos.

Economia solidária como emancipação para mulheres negras

“Lutamos todos os dias para nos manter no caminho da autonomia”, diz Thayna Brasil | Crédito: Arquivo pessoal

 

A empreendedora Thayna Brasil, da iniciativa Kuumba & Gestão, avalia que o empreendedorismo entre mulheres negras no Rio Grande do Sul ainda é pouco valorizado, apesar da existência de diversos coletivos que fomentam o setor. Segundo ela, a posição histórica das mulheres negras na base da pirâmide social faz com que suas capacidades sejam frequentemente descredibilizadas, mesmo sendo o povo negro, em suas palavras, “um povo que sempre empreendeu”.

Ao relatar sua experiência, Brasil afirma que, ao buscar recursos e políticas públicas, mulheres negras raramente estão entre as primeiras a serem atendidas e que a defesa da pauta racial continua sendo questionada em muitos espaços. Para ela, o principal impacto desse cenário é o racismo estrutural cotidiano, que leva muitas a desistirem de se desenvolver ou até mesmo de permanecer na luta. “Lutamos todos os dias para nos manter no caminho da autonomia”, resume.

A empreendedora reconhece que, em certa medida, mulheres negras têm conseguido ocupar espaços de liderança e visibilidade, mas ressalta que os desafios são diários para se manterem nesses locais e, muitas vezes, para serem ouvidas. Brasil defende a ampliação da visão sobre o setor: para ela, é preciso ir “além de um círculo” e compreender o conjunto das necessidades, apostando na união para que todas possam alcançar ao menos uma estabilidade, seja financeira ou no entendimento sobre seus próprios negócios.

Nesse contexto, a empreendedora aponta a Economia Popular Solidária como uma forma distinta de desenvolvimento, capaz de “trazer leveza ao trabalho e fortalecer a geração de renda”. Ela diferencia a condição de ser autônoma da compreensão plena da autonomia sobre o próprio empreendimento e afirma que esse modelo é fundamental para a sobrevivência e a emancipação das mulheres negras, historicamente mais afetadas pelas barreiras de acesso ao mercado formal em razão da interseccionalidade de gênero e raça.

Para ela, a principal diferença está na humanização do trabalho. No empreendedorismo tradicional, observa, a mulher negra frequentemente “empreende por necessidade”, de forma isolada, assumindo sozinha os riscos e enfrentando juros mais altos e pouco, ou nenhum, acesso a crédito. Já na Economia Popular Solidária, o trabalho é entendido como um ato social e político, que politiza a economia ao incluir pautas como o reconhecimento do trabalho doméstico, invisibilizado no mercado convencional, e a valorização das identidades culturais e ancestrais como formas de resistência e dignidade.

Brasil também relata que o aprendizado contínuo sobre esse modelo a levou a repensar práticas herdadas do empreendedorismo tradicional, destacando a mudança de hábitos como elemento central desse processo. Segundo ela, isso impactou sua forma de produzir e também sua atuação como educadora, permitindo que compartilhe o conhecimento com clientes e alunos, que passam a se familiarizar com o modo de trabalho.

Empreendendo formalmente desde 2014, Brasil conta que iniciou sua trajetória como consultora de beleza, a partir da área da estética, aliada à gestão de negócios. Atualmente, atua com consultorias voltadas à consciência financeira para empreendimentos, trabalha com o terceiro setor com base em sua formação em Ciências Contábeis e também realiza customização de roupas e produção de artesanato. As vendas, segundo ela, acontecem principalmente por indicação, participação em feiras e pelas redes sociais.

Editado por: Katia Marko

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