O racismo vosso de cada dia

Por Gilciane Neves – Militante e Educadora Popular, integrante do Empreendimento Ecopapel e do CAMP

O meu objetivo hoje é mostrar o quanto você pode ser racista. Pasmem, vocês são racistas!

Eu já vivi muitas coisas e não é que eu nunca tenha me dado conta do racismo e do preconceito que nós, negras e negros, sofremos todos os dias. Mas, nestes últimos anos, não consigo mais fingir que não vi, que não é comigo, que não me atingiu.

Não consigo mais aceitar que a culpa é do “sistema”, pois é ele que dita como devem ser as relações. O “sistema” foi criado pelas pessoas e são as pessoas que reproduzem o tal “sistema”. Então, o racismo e o preconceito são frutos de um grupo de seres humanos que se deram o direito de achar que são melhores que outros.

Ser negra e mulher nesta sociedade é sofrer as violências do racismo de todas as formas, todos os dias, todos os momentos e em todos os lugares! Sim, eu disse todos os lugares! Digo isso porque falo deste lugar de Mulher, Negra, Pobre, Trabalhadora da periferia. E do lugar que falo posso dizer que não foram poucas as violências raciais que vivenciei nestes 40 anos de vida, mas neste momento vou elencar apenas algumas, a partir das dimensões familiar, profissional e econômica.

Eu adoro receber a família e amigos em casa e, para isso, não necessito de um motivo específico, mas o evento sempre mais esperado por mim e por alguns amigos é o dia do meu aniversário. Neste dia, costumo receber muitas pessoas em casa, normalmente de diferentes etnias e de vários lugares. As pessoas vão chegando e eu vou apresentando uma a uma e passado algum tempo sempre tem um/uma amiga branca que se dá o direito de comentar: “Veio bastante gente né? E brancas!” Como se eu, enquanto pessoa negra, não tivesse o direito de me relacionar com pessoas brancas, como se ela pessoa branca, fosse a minha cota.

Desculpa aí amiga, você é racista!

Outro exemplo forte aconteceu comigo no trabalho. Estava eu trabalhando em Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras, onde desenvolvia, naquele período, a coordenação adjunta da instituição. Maria Mulher trabalha com o empoderamento das mulheres negras, contra a violência doméstica e costuma receber voluntários de diversos cursos e faculdades. Em um belo dia, recebo a ligação da coordenadora de um curso de Direito. Ela tinha como objetivo conhecer a instituição e disponibilizar os alunos para estagiarem e ofertar à comunidade a assessoria jurídica.

Marcamos, então, em um sábado pela manhã. Vou atender o coletivo (todos estudantes brancos) e ao saudar todos, eles pedem para falar com a coordenadora da instituição. Eles nem dão tempo de me apresentar. Vão logo solicitando a coordenadora. Eu, meio sem graça, convidei-os a entrar, acompanhei-os até a sala e lhes pedi que aguardassem que ela já viria. Logo em seguida peguei o folder de Maria Mulher, apresentei a instituição, falei que era uma organização de Mulheres Negras e que eu era coordenadora e que estava chocada com tamanho desrespeito deles em ter a intenção de desenvolver um trabalho em um espaço, ao qual não se deram o trabalho de pesquisar sobre. Falei do racismo que eles expressaram, pois na concepção deles uma mulher negra jamais seria a coordenadora.

Desculpa aí, estudantes de direito, vocês são racistas!

O último exemplo do racismo vosso de cada dia acontece nas relações comerciais, na aquisição dos bens, no momento de usufruir o dinheiro, que é resultado do meu trabalho. Ao chegar em uma loja ou supermercado para adquirir qualquer tipo de produto, gosto sempre de avaliar o material que necessito e o seu preço. Desde quando entro na loja, independente da roupa que eu esteja vestindo, o segurança, normalmente um homem negro alto e forte, passa a me acompanhar em todos os corredores. Leia -se: seguir, cuidar, fiscalizar para garantir que, após escolher o que preciso, eu me dirija imediatamente até o caixa mais próximo, garantindo, assim, a segurança do patrimônio do patrão dele. Mas, veja bem, o que levou o segurança a entender que seria eu, uma mulher negra, que colocaria o patrimônio do seu senhor em risco? Em que momento ele entendeu que eu era uma pessoa que poderia roubar, furtar, ou surrupiar a loja?

Entendam bem a situação: o segurança é negro! Será que ele nunca foi confundido com bandido? Por que cargas d’água ele reproduziu comigo a mesma violência que sofre quando não está naquela posição de feitor?

Posso tentar responder: ser negro na sociedade brasileira e neste sistema capitalista é muito ruim, todos sofrem, mas quando se é mulher negra, o sofrimento é dobrado. A mulher negra sofre preconceito por ser Negra, depois por ser Mulher. Já o homem negro ele tem essa “vantagem”: ele é homem!

Desculpa aí segurança homem negro, você é racista!

Essa situação de violência sofridas pelas mulheres negras e por todos os negros do país não é novidade. Ela é histórica e teve início no Brasil na primeira metade do século XVI. As pessoas negras foram retiradas de suas terras africanas onde viviam em liberdade, para trabalhar como escravos no Brasil com extrema violência.

A abolição da escravidão se deu no final do século XIX, no entanto o Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravatura, em 1888, ou seja há 129 anos. Durante todo esse processo de escravização, mais de três séculos, o povo negro trabalhou, apanhou, lutou, resistiu, apanhou novamente e nunca desistiu. Ao contrário, estabeleceu uma cultura de resistência através dos Quilombos, da arte, da música.

Após a abolição, não foi garantido ao povo negro, moradia, trabalho e alimentação digna. A nós foi ofertado violência, ódio, discriminação e uma vida cheia de infortúnios e tristeza.

A violência, como todos bem sabem, foi a forma que os escravocratas encontraram para garantir que os povos negros permanecessem escravizados. Entretanto, também no processo após a abolição é ela que delimita quais os espaços serão ocupados pelos negros e negras, fazendo assim com que o povo negro não usufruísse de “espaços dos brancos”.

E neste cenário de angústia e dor passaram-se muitas décadas de resistência do povo negro. Gerações partiram, outras surgiram e a escravidão acabou, mas o racismo, o preconceito e a violência ao povo negro, bem como a desigualdade social permanecem no século XXI.

Algumas pessoas brancas insistem em dizer que racismo não existe e que não veem diferença de tratamento entre as “raças”, mas convido a cada um, a cada uma a repensar suas atitudes e ações cotidianas. Ações simples, como cumprimentar a cobradora ou motorista. Seu cumprimento soa da mesma forma quando eles são negros? Se não? Desculpa aí, mas você é racista!

Quando você está caminhando em uma rua deserta e de repente surge um homem ou uma mulher negra que se aproxima e você se sente inseguro, diferentemente se fosse uma pessoa branca. Desculpa aí, mas você é racista!

E é o seu racismo que violenta pessoas como eu, todos os dias, em todos os momentos. São essas simples ações, que parecem tão ingênuas e “sem intenção”, que acabam por excluir a maioria da população brasileira, que é negra.

Chega de tanto racismo! Repense seus atos. Faça uma mudança de fato. Não adianta incluir sem respeitar. A mudança do tal “sistema” só acontece a partir e através de cada pessoa. Ah, e de boa, quem tem que pedir desculpa nisso tudo são vocês, racistas!

(Esta reportagem faz parte do Derivas, publicação online que reúne os textos dos alunos do Curso de Jornalismo Alternativo no Nonada. Leia as outras reportagens neste link)

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