Nem recatada, nem do lar. A mulherada tá na rua prá lutar

Nem recatada, nem do lar. A mulherada tá na rua prá lutar. Talvez as palavras de ordem mais em voga nas últimas semanas escutadas nas ruas em todo Brasil. A presença das mulheres em defesa da democracia é absolutamente massiva. Em defesa do mandato da presidenta Dilma, contra a cultura do estupro, contra o machismo e pela democracia nas escolas. Palavras invocadas com vigor em cada manifestação em diferentes situações. Se século passado mostrou a emergência do feminismo o século XXI torna evidente a radicalidade do movimento: flexível e profundamente democrático. Daí o ódio misógino – que muito se reveste de fundamentalismo religioso – na reação da direita golpista e na repressão das forças policiais. O feminino atraia todo o ódio de elites impregnadas da cultura escravocrata, patrimonialista e patriarcal. Isso não é em absoluto incongruente com posturas mais liberais e descoladas para os seus por parte das elites. O problema é o transbordamento radical democrático para os de baixo que possa ameaçar privilégios.

A percepção desse fato tem consequências políticas na conjuntura que vivemos e por se tratar do feminino é uma questão transversal à esquerda e à direita. Devemos nos perguntar porque Dilma é defendida tão vigorosamente. A resposta não é difícil: mulheres encontram dignidade com o Bolsa família, mulheres passaram a ter melhor acesso à saúde, mulheres são maioria nas universidades, formas plurais de comportamento encontraram guarida institucional políticas dirigidas à agricultura familiar também as beneficiaram. Dilma alçada à condição de presidente simboliza essas conquistas.

O golpe é percebido pelas mulheres como liquidação da dignidade. Assim é irresponsável politicamente a defesa de se lançar data antecipando eleições gerais/presidenciais – os termos não são equivalentes – por forças de esquerda (e que começam a encontrar ressonância em setores direitistas inquietas pelo impasse em que se meteram) antes de votação final do impedimento por duas razões: admitir eleições nas condições dadas é avalizar o golpe e principalmente é reduzir novamente as mulheres à minoridade política, o que poderá resultar em imensa frustração e desmobilização. Eleições desse tipo tem um nome de larga tradição nas elites brasileiras: conciliação.

Carlos Roberto Winckler- sociólogo e integrante do Conselho Diretor do CAMP
Porto Alegre, 04/06/2016

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