Copa pra que e pra quem? De Mauri Cruz

Há pouco mais de cem dias do início da Copa do Mundo de Futebol boa parte dos brasileiros está se perguntando: Copa prá quê? Um questionamento mais do que oportuno frente aos investimentos públicos e, principalmente, às denúncias de violações de direitos sociais protagonizadas por governos locais, estaduais e federal para a realização deste evento esportivo.

Infelizmente a dicotômica disputa entre #naovaitercopa versus #vaitercopa não vai permitir uma reflexão mais profunda do que está ocorrendo e envolvendo todo este processo. Quero dizer que não me somo àquelas pessoas que querem a Copa à qualquer custo e tão pouco me sinto representado por aqueles que enxergam num eventual cancelamento do evento a derrota do Governo Dilma. A questão que me parece mais plausível seria perguntar: Copa prá quem? Aliás, esta era a linha de mobilização iniciada com os Comitês Populares da Copa idealizada pelos movimentos sociais urbanos ainda em 2010 quando o país foi escolhido como sede do mundial.

Antes de entrar no debate sobre esta Copa, acho fundamental reafirmar que a realização de eventos esportivos internacionais entre nações, com regras comuns, organização multilaterais e participação direta de cidadãos de todas as partes do planeta é um avanço no lento processo civilizatório da nossa jovem humanidade. Muito diferente do que as guerras, o esporte encerra uma disputa sadia e positiva, onde muitas modalidades exigem trabalho coletivo, planejamento, estratégias e uma postura colaborativa. Diferente do que as disputas por territórios ou comerciais, o esporte parte da premissa de regras igualitárias independente do tamanho econômico de cada país. Não se admite nenhuma forma de protecionismo, nem de privilégios. Dos juízes se aguarda neutralidade e imparcialidade no julgamento dos conflitos e não se admitiria que os times norte-americanos ou europeus entrassem em campo já ganhando de 1 X 0 contra qualquer país do hemisfério sul.
Por isso, os eventos esportivos de qualquer modalidade devem ser saudados e comemorados como positivos.

No Brasil, um evento de futebol se torna ainda mais especial dada a identidade do povo brasileiro com este esporte. Foi nos campos de futebol um dos primeiros lugares de protagonismo popular sem necessidade de se pedir licença aos donos da casa grande, inclusive, lugar de glória de esportistas negros e de operários. Mais recentemente também as mulheres conquistaram este espaço. O futebol amador e de várzea mobiliza milhões de jovens em todas as cidades do país, onde não há cartolas nem empresários. Somente a mobilização e organização de associações esportivas entorno da paixão pelo esporte.
Então, qual o problema da Copa do Mundo? Ora, são muitos. O principal problema é a sua concepção. A Copa do Mundo de Futebol não é um evento organizado pelas confederações nacionais de futebol e sim pela FIFA, uma federação que se comporta como empresa privada que, em associação comercial com grandes empresas de comunicação, tornou o evento um grande negócio para poucas pessoas. Assim como o campeonato brasileiro tem sido privatizado por cartolas em conluio com redes de televisão, a Copa do Mundo tem seguido a cartilha dos modelos mais modernos do capitalismo: privatiza-se o lucro e socializa-se as despesas e os investimentos. E é isto que estamos assistindo no evento Copa do Mundo no Brasil. Por isso, é justa a crítica contra a Copa. Ainda mais porque a violação de direitos tem sido extrema e sem qualquer possibilidade de mediação ou negociação, desde o esdrúxulo caso das baianas do acarajé que estão proibidas de vender seus produtos no entorno do estádio da Fonte Nova, passando pelo “despejo” de milhares de famílias para a construção da infraestrutura, até a “limpeza” realizada contra os moradores de rua no entorno dos estádios para maquiar o país para os turistas.

A outra pergunta que fica é se era possível fazer uma Copa do Mundo diferente? Claro que era. Mas para isso, seria necessário enfrentar a FIFA e seus aliados. Colocar à público uma crítica eficaz contra o modelo do evento. Tal como o Clube Bom Senso fez no ano passado contra a CBF pautando de forma pacífica e criativa que o esporte mais popular do Brasil não pode ser privatizado. É um patrimônio cultural e social do povo brasileiro e desta forma tem que ser encarado.

No conflito irracional entre o #naovaitercopa contra o #vaitercopa, o que mais me incomoda é que estamos perdendo a oportunidade de demonstrar de forma pedagógica ao mais simples cidadão brasileiro que o que se convencionou denominar “modelo FIFA” nada mais é do que o método e a lógica de agir do sistema capitalista em qualquer área do mercado. É assim que funciona o capital. Orienta as políticas e recursos públicos para seus interesses, utiliza os grandes conglomerados de comunicação para fortalecer suas propostas e interesses, transferem os investimentos para os encargos públicos e privatiza o lucro gerando mais acumulação de riqueza e mais desigualdade. É por isso que a agência de cooperação internacional OXFAM apresentou em Davos no Fórum Econômico Mundial de janeiro passado um estudo onde demonstra que a riqueza das 85 pessoas mais ricas do mundo equivale à riqueza de metade da população mundial, ou seja, a 3,5 bilhões de pessoas. Por isso, o “modelo Fifa” é um modelo a não ser seguido nem apoiado.

A Copa do Mundo deixará muitos legados. Além das obras viárias e dos projetos sociais à ela relacionados, vamos viver um mundial com muitas mobilizações, quebra-quebra, gols e tudo mais. É a democracia brasileira mostrando sua cara. Depois, o capitalismo seguirá usurpando o povo em cada uma de suas modalidades de mercado e a mobilização #naovaitercopa vai ter perdido seu foco. Taí minha preocupação e meu ponto de reflexão. A questão chave, ao meu ver, é #copapraquem?. Porque assim, após a Copa, continuaremos perguntando: Cidade pra quem? Saúde pra quem? Educação pra quem? Transporte pra quem? Brasil pra quem? Perguntas necessárias não só agora, mas sempre.

Mauri Cruz é advogado socioambiental com especialização em direitos humanos, professor de pós graduação em direito à cidade e mobilidade humana. É diretor regional da Abong e membro do CDES/RS. Compõe o Conselho Consultivo do Sul21. E Integra o Conselho Diretor do CAMP.

Fonte: Sul 21

2 comentários sobre “Copa pra que e pra quem? De Mauri Cruz

  1. MINHAS IMPRESSÕES SOBRE ALGUMAS COPAS DO MUNDO E O PLEBISCITO POPULAR

    Sou militante das causas sociais, muito mais do que amante do Futebol, pelo contrário, nunca liguei muito para isso e achava tedioso quando alguém perguntava se agente era em criança ou mais tarde. Com mais meninas em casa, esta não era questão relevante, ao passo que nos dias de hoje meus filhos e filhas acompanham o esporte preferido do pai e avôs e sabem jogar.

    Sendo assim, as lembranças mais fortes que tenho, apesar da permanência de pessoas frente à televisão para assistir novelas e campeonatos falando pouco de si, são de duas Copas em especial: em 1974 quando tínhamos recém adquirido um aparelho de TV e pulavam adultos e crianças na sala, fazendo barulho no assoalho de madeira – uma festa que eu não precisava entender muito para participar; e em 1982, ano em que me surpreendia a calmaria das ruas de Porto Alegre, ao sermos dispensados(as) do trabalho em horário que antecedia o jogo; momento em que eu constatava, escrevendo alguns versos que “somente hoje esta massa escondida mostrará sua face aos passarelantes – eles -, os operários da vida porque, pela Copa do Mundo, decretou-se feriado nacional!”. Na verdade, lotavam os ônibus para casa, e não os espaços de passeio.

    Neste ano de 2014, eu sigo indiferente ao grande espetáculo, aliás, se espiar será de passagem – perdoem os aficionados, mas respeitemos os gostos de cada um(a). Porém, é impossível ser indiferente ao significado do desabafo da Dilma, ao relembrar outra Copa, prisão e ditadura onde, na luta corajosa, cidadãos e cidadãs brasileiras eram mortos(as) e torturados(as), em nome da liberdade e direitos exigidos para todos(as) nós, enquanto assistíamos aos jogos… Só por isso, esta já faz jus em pretender ser a Copa das Copas e agregar muitas outras boas expectativas.

    Ocorre que também exijo o dito padrão FIFA ou da COPA, sempre para mais, nas áreas de saúde/saneamento, transporte, educação e segurança. Isso, quando a pauta for investimento! Quando se tratar de ética ou corrupção talvez a consulta a alguns livros e estudos, que já circulam, possam igualmente orientar o que seja orgulho ou vergonha; o que esteja a fim do esporte ou de uma máfia. Daí, eu preferir avistar outras modalidades esportivas e, por lástima, cada vez mais raramente, os times de bairros e escolas, mesmo em campos improvisados, preenchendo as horas dos domingos de maneira harmoniosa, ao invés do confronto de torcidas rivais. Quiçá, promova-se o aproveitamento inteligente e democrático dos majestosos estádios!

    Entretanto, no campo político, como eu não pretendo aplaudir os golpistas de plantão, tampouco os baderneiros ou quem fique à espreita de alguma arruaça para usar da força e reprimir. Quero apostar na democracia e admitir que se a opção presidencial não foi a melhor, ao aceitar sediar o acontecimento, ela é minha, é nossa, em parte; e nem tudo é acerto nos processos de gestão. Quero questionar àqueles(as) que colocam camisas de times clássicos nos filhos e filhas, que se autodeclaram torcedores(as), indo ou não aos estádios; que protestam agora, mas cuja preferência sempre fez entender que a escolha de sermos anfitriões agradaria. Custo tão alto, não!

    Por conta disso, resta confiar em outra disputa logo a seguir, a da Reforma Política, através do Plebiscito Popular em Setembro, em uma Constituinte Exclusiva e Soberana que se volte às demandas importantes da maioria da população brasileira, com bastante adrenalina, como em emocionantes partidas e igualmente aos arrepios que sentimos ao longo do corpo nos manifestos de Junho de 2013, ao percebermos o expressivo envolvimento das pessoas respondendo as palavras de ordem “Quem apoia pisca a luz”, ou fazendo coro, para bem distinguir quem realmente estava ali em prol de uma luta séria e justa, sob o alerta de um brado forte e prudente “Sem Violência!”.

    Acredito que buscamos e temos o direito de exigir, sim, bons legados e a reversão de decisões que não contemplem os anseios da maioria populacional desta nação, dos trabalhadores(as) rurais e urbanos e de seus estudantes. Também é nossa obrigação estarmos todos(as) atentos(as) para a defesa da juventude, de mulheres e crianças, no combate ao tráfico humano e à pedofilia – ameaças anunciadas, mas que há muito têm sido preocupação. Por certo, desejamos avanços e consolidação dos Direitos Humanos; abominando torturas e exploração de qualquer natureza. Portanto, que o clima seja de paz, conquanto não se calem nossos protestos feitos a partir das arquibancadas do controle social, contrários à alienação, à fome e à miséria.

    Bem disse Mauri Cruz em um artigo: “(…) acho fundamental reafirmar que a realização de eventos esportivos internacionais entre nações, com regras comuns, organização multilaterais e participação direta de cidadãos de todas as partes do planeta é um avanço no lento processo civilizatório da nossa jovem humanidade. Muito diferente do que as guerras, o esporte encerra uma disputa sadia e positiva, onde muitas modalidades exigem trabalho coletivo, planejamento, estratégias e uma postura colaborativa. Diferente do que as disputas por territórios ou comerciais, o esporte parte da premissa de regras igualitárias independente do tamanho econômico de cada país. Não se admite nenhuma forma de protecionismo, nem de privilégios. Dos juízes se aguarda neutralidade e imparcialidade (…)”. Ademais, ele não deixou de problematizar acerca do modelo capitalista, despejos e desigualdades, exemplificando forma pacífica e criativa de pautar a não privatização do esporte mais popular do Brasil como patrimônio cultural e social.

    Dentre as goleadas cujo treino e esforço são imprescindíveis para a transformação da sociedade, estão a Política Nacional de Participação Social, o Marco Regulatório para as Organizações da Sociedade Civil, o Marco Regulatório da Educação Popular para as Políticas Públicas. Salve este time!

    Gicelda Mara Ferreira da silva
    Educadora Social/Recid – Pedagoga pela FURG/RS
    ——————————————-
    Entre 09-06-14 e 24-06-14 – Eram impressões em 09-06-14, ou já era uma carta…

  2. Prezada Gicelda,

    Agradecemos pelas tuas contribuições.
    Desculpe a demora para liberar o teu comentário.

    Abraços,

    Assessoria de Comunicação – CAMP

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