Mensagem enviada por mim a Frei Sérgio, quinta, 29.01.26, data dos seus setentinha bem vividos: “Parabéns mil, caríssimo. Te cuida! Cuidemo-nos! Viva a vida! Paz e Bem.”
Áudio de Frei Sérgio para mim, recebido em 01.02.26, domingo, às 13h23m: “Ô Selvino. Como é que tá confrade? Tô aqui aproveitando o domingo para responder as felicitações e lembranças, também a tua. Grande abraço, meu irmão. Brigado, brigado, brigado. E vamos em frente. E que o Senhor sempre te abençoe.”
Minha mensagem-resposta para Frei Sérgio, em 01.02.26, domingo, às 21h28m: “Tri, tri, tri. Tamo junto. Na boa luta, com fé e coragem, ESPERANÇAR.”
Como pode a vida, ou seu fim de presença física, ser tão rápida, eu que o encontrei pela última vez em outubro, nas celebrações dos 40 anos da ocupação da Fazenda Annoni? conversamos muito, relembrando histórias de luta e memórias de confrades, amigos e companheiros de uma vida.
Vou à procura de referências e histórias. Encontro-as na magnífica Dissertação de Mestrado de Cléo Bonotto, na UFSM, em 2008, com o título ´TENDO A CRUZ POR BANDEIRA: MOVIMENTOS RELIGIOSOS CONTRA-HEGEMÔNICOS NA AMÉRICA LATINA, INSPIRANDO AS HISTÓRIAS DA FORMAÇÃO E A PRÁTICA DE AGENTES RELIGIOSOS EM MOVIMENTOS POPULARES NO RIO GRANDE DO SUL (1970-1980)´, eu, Frei Sérgio e muitos outros entrevistados. Várias vezes falei com Frei Sérgio sobre a necessidade e urgência da publicação da Dissertação, eis que Cléo morreu tragicamente em 2011 (Ver artigo de Selvino Heck via Google, abril de 2011: ´Cléo Bonotto, mais um´).
Escreveu Cléo Bonotto na Dissertação, p. 70: “Este ´laboratório´ da Lomba do Pinheiro foi o ponto de partida para a abertura da Província franciscana do Rio Grande do Sul ao debate sobre a Teologia da Libertação que se propagava a partir de Medellin, em 1968, para toda a América Latina. Depoimento de Frei Sérgio na página 71 da Dissertação: “Quando eu entrei no noviciado franciscano, a Província franciscana do Rio Grande do Sul estava literalmente tomada pelo debate da Teologia da Libertação. Havia um grande grupo de freis que haviam aderido a essa concepção teológica e, um deles, Selvino Heck. Eles teorizavam sobre isso. Outro deles, Olírio Plínio Colombo, professor da PUC, grande teórico da ética, com vários livros publicados. Assim, quando entrei no noviciado em 1975, esse debate estava instaurado dentro da Província. Circulavam muitos textos, muita leitura e nós líamos muito. Então eu li os primeiros livros do Boff sobre a Teologia da Libertação, sobre a vida religiosa inserida, sobre a leitura do franciscanismo a partir da ótica dos pobres.”
Escreve Cléo Bonotto, na Dissertação em ´A rede: apoiadores e articulações entre as organizações populares´ (p. 83): “Frei Sérgio destacou que a luta pela terra angariava as simpatias da Igreja gaúcha devido às origens campesinas do clero do Rio Grande do Sul, uma vez que a maioria de seus representantes era constituída por filhos de pequenos proprietários era constituída por filhos de pequenos proprietários da região colonial, o que os identificava com os Sem-Terras (p. 83). Frei Sérgio também narrou como ocorreu seu ingresso na CPT e seus primeiros contatos com o movimento campesino e as transformações que isso acarretou na sua interpretação da realidade (p. 85). O frei também enfatizou a articulação que ocorreu entre os agentes engajados no meio urbano com as primeiras ocupações de terra no Estado, sendo importante ressaltar que muitos dos agentes que mais tarde estariam entre as lideranças do Movimento Sem-Terra atuavam nas periferias urbanas. Destacou ainda que, durante o acampamento em Encruzilhada Natalino, ocorreu a criação do Boletim Sem-Terra, inicialmente mimeografado e que mais tarde tornou-se o Jornal Sem-Terra, criado na tentativa de obter apoio da sociedade civil” (p. 86).
Escreve ainda Cléo Bonotto (p. 95): “Nesse processo, foi fundamental a formação de lideranças dentre os próprios Sem-Terra, como destaca o Frei Sérgio Görgen: ´Desde a Encruzilhada Natalino já existia um bom trabalho de formação de lideranças através da CPT, do padre Arnildo, do próprio João Pedro Stédile, que era da Pastoral da Terra naquela época.”
Segunda-feira, 02.02.26, dia de Nossa Senhora dos Navegantes e de Iemanjá, eu, Loiva Dietrich, Marcelo Moura, eles que ´trabalham´, na fraternidade, todas as segundas na minha casa para organizar meus escritos, preparando sua publicação, estamos os três à procura de um escrito meu de agosto de 1977, com o título ´CRISTIANISMO E CAPITALISMO´, publicado no Boletim da Província Franciscana gaúcha. Loiva achou-o, depois de horas de procura. Frei Sérgio disse mais de uma vez, publicamente, na minha presença, que esta reflexão e escrito meus tinham ajudado na sua conversão política e de vida.
Escrevi então, eu frade franciscano, morador da Parada 13, Vila São Pedro, na Lomba do Pinheiro, em agosto de 1977, em ´Cristianismo e Capitalismo´: “Estas reflexões foram, inicialmente, escritas para jovens, em geral secundaristas; por isso, às vezes, seu primarismo e seu tom quase didático.
Pode um sistema econômico, cujo primeiro e único objetivo, acima mesmo do homem, é o lucro e cuja principal lei é a livre concorrência, sem peias e sem medidas, ser considerado cristão?
O capitalismo, como sistema econômico está montado sobre dois fatores básicos: o capital, isto é, o dinheiro, e o trabalho, isto é, a mão-de-obra, o homem. O capital vem em primeiro lugar, porque este, através da produção e do lucro subsequente, vai ter que ser aumentado. O homem vem em segundo plano. Seu bem-estar, seu conforto, sua felicidade são, em teoria, decorrentes do lucro que já veio anteriormente. Os fins são sempre comerciais e lucrativos.
O cristianismo, porém, prega outros valores. Através de toda história humana, Deus se revelou aos homens. Os valores que Deus, na pessoa de Jesus, pede que o homem viva são: amor, justiça, liberdade, verdade, paz, solidariedade, fraternidade.
Já ficou claro, acho, que o cristianismo, pelo fato de ser anticapitalista na essência e pelo fato de vivermos num sistema capitalista, é, pois. E só pode ser revolucionário. Porque, para que aconteça o Reino de Deus, é preciso superar o capitalismo, anunciando o Novo Mundo, a Nova Sociedade.
O que um cristão deve pensar? Quais as lutas concretas a serem enfrentadas? Que deve o cristão pregar e testemunhar? Que devemos nos preparar e testemunhar hoje? A favor e contra o que o cristão deve ser?
Contra: CONTRA A SOCIEDADE DE CONSUMO. CONTRA O INDIVIDUALISMO. CONTRA A CONCORRÊNCIA E A COMPETIÇÃO. CONTRA O DINHEIRO. CONTRA O PODER, como corrupção e domínio. CONTRA A PROPRIEDADE PARTICULAR DOS MEIOS DE PRODUÇÃO. CONTRA O ACÚMULO DE BENS E RIQUEZAS. CONTRA A MANIPULAÇÃO EM TODOS OS NÍVEIS. CONTRA A RELIGIÃO COMO ÓPIO E ENTORPECIMENTO DAS CONSCIÊNCIAS. CONTRA A PROPAGANDA ENQUANTO INSTRUMENTO DO SISTEMA CAPITALISTA. CONTRA A TECNOCRACIA DE TODAS AS FORMAS. CONTRA O SALÁRIO MÍNIMO, VERGONHOSO, ENQUANTO AS EMPRESAS AUFEREM LUCROS FABULOSOS. CONTRA AS MULTINACIONAIS. CONTRA A BUROCRACIA.
A favor: A FAVOR DA PROPRIEDADE SOCIAL DOS MEIOS DE PRODUÇÃO. A FAVOR DA VIDA EM COMUNIDADE. A FAVOR DA DEMOCRACIA VERDADEIRA. A FAVOR DOS DIREITOS HUMANOS. A FAVOR DA LIBERDADE DE PENSAMENTO, INFORMAÇÃO, EXPRESSÃO, OPINIÃO, REUNIÃO E ASSOCIAÇÃO. A FAVOR DOS MOVIMENTOS DE BASE. A FAVOR DO TRABALHO GRATUITO, TRABALHO COMO SERVIÇO E DOAÇÃO. A FAVOR DE UMA ECONOMIA VOLTADA PARA OS INTERESSES DO POVO. A FAVOR DA IGUALDADE SOCIAL E DE UMA SOCIEDADE SEM CLASSES. A FAVOR DE UMA MELHOR DISTRIBUIÇÃO DE RENDA. A FAVOR DA REFORMA AGRÁRIA. A FAVOR DE UMA EDUCAÇÃO LIBERTADORA. A FAVOR DA REVOLUÇÃO CONSTANTE, PELO ANDAR PARA O FUTURO, PELA BUSCA DO NOVO. A FAVOR DOS VALORES EVANGÉLICOS, VIVIDOS RADICALMENTE.
Jesus não foi morto por acaso. Pregou o amor, justiça, a liberdade, a paz. Foi a favor dos pobres
Como responderemos a estas questões? Como o nosso viver franciscano e, portanto, cristão, se coloca e enfrenta o desafio de uma Igreja pobre, sofrida, serva e peregrina como é ou tenta ser hoje, especialmente, a nossa igreja latino-americana e africana. Não uma igreja para os pobres, mas uma igreja pobre e dos pobres. Com todas as suas consequências, inclusive a perseguição, tortura, prisão e morte. Sempre na tentativa de ser autenticamente evangélica e cristã.”
Era como pensávamos e tentávamos ser, meu amigo, companheiro e sempre confrade Frei Sérgio em 1977, em meio à ditadura militar, e estamos tentando ser, agir e viver ao longo do tempo. E assim deve ser hoje, 2026, com teu legado, tua inspiração, teu exemplo, que continuarão no meio de nós, nas nossas lutas, nas nossas comunidades.
Frei Sérgio sempre presente. Frei Sérgio vivo sempre.
Paz e Bem.
Selvino Heck
Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)
Em três de fevereiro de dois mil e vinte seis
