Banco de Sementes Crioulas: resistência solidária no campo

O diálogo e a preocupação sobre o tema da produção de sementes crioulas e de alimentos diversificados, tem se intensificado nos últimos anos, devido à grande publicidade acerca dos potenciais problemas que a produção de monocultivos tem acarretado ao meio ambiente, através da perda da diversidade de produção e dos impactos causados na saúde da população.

As grandes multinacionais há muito têm intensificado, no sentido de desestimular o uso da produção através dessas sementes, se apropriando da cultura camponesa e colocando outra no lugar (transgênica). Isso foi sendo forjado especialmente (e com maior intensidade) a partir dos anos 60 com a chamada Revolução Verde. Incutindo a ideia de que somente aumentariam a produção através do uso de adubação química, agrotóxicos e com a utilização de sementes “melhoradas geneticamente” desqualificando assim as sementes crioulas, levando os agricultores e agricultoras a dependerem cada vez mais dos produtos químicos produzidos por essas multinacionais. Tudo isso fortalecido pelas propagandas, técnicos e engenheiros agrícolas e instituições de acompanhamento técnico.

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Há de se ponderar, ainda, que falta muito para que a preocupação de uma parcela da sociedade com o consumo saudável de alimentos passe a se tornar realidade de produção, visto que cada vez mais há pequenos/as produtores/as sendo inseridos nas grandes cadeias produtivas de grãos e animais, há um envelhecimento da população rural e as políticas públicas para este setor ainda são bastante fragilizadas. Do mesmo modo, há uma fragilidade no conjunto das organizações sociais e ONGs que, com quadro reduzido não conseguem acompanhar de forma processual e sistemática a produção de alimentos, do mesmo modo, necessita-se ampliar as práticas que envolvem o processo de armazenamento, logística e comercialização de alimentos saudáveis que provem das sementes crioulas.

Desta forma, experiências que remetem a preservação e multiplicação da diversidade de sementes crioulas se tornam fundamentais. Como exemplo disso, temos o trabalho realizado pelo Centro de Tecnologias Alternativas e Populares (CETAP) com a experiência do Banco de Sementes Crioulas na região Alto Uruguai e do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) com a Casa de Sementes Crioulas na região de Hulha Negra e entorno. Ambas as experiências estão localizadas no Estado do Rio Grande do Sul.

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A Casa ou Banco de Sementes Crioulas é o local físico onde são armazenadas as sementes crioulas após estarem secas e selecionadas. As famílias produtoras levam suas sementes até a Casa/Banco e a retiram quando necessitam. É um espaço de troca que também auxilia no resgate, na melhoria genética e na armazenagem das variedades locais.
Os/as agricultores/as, ao longo dos tempos foram qualificando as técnicas para o armazenamento das sementes em suas casas. Dentre as formas mais comuns está o armazenamento em garrafas plásticas e fechadas, o que impede que haja ar no recipiente, de forma a não comprometer a germinação das sementes. Posterior a isso, são guardadas nos porões das casas ou nos galpões, longe da umidade, ventilação excessiva e luminosidade.

No entanto, o Banco ou Casa de sementes crioulas é um espaço coletivo, onde as famílias camponesas optam em deixar uma parte de suas sementes armazenadas, disponibilizando-as para as demais famílias que não possuem aquela determinada variedade. Esta troca de sementes permite, ao mesmo tempo um melhoramento genético da produção garantindo que determinada semente crioula não se perca, devido ao clima e tempos adversos. Estes espaços atuam como um modelo alternativo de administração coletiva da reserva de sementes necessárias para o plantio. São organizações comunitárias e junto à casa de sementes, as pessoas, famílias e grupos encontram um espaço de empréstimo, troca e disponibilização de sementes.

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Assim, uma Casa ou Banco de Sementes Crioulas deve ser organizado a partir da realidade e necessidades locais, podendo abranger um grupo, comunidade, município ou região. Depois de construído é importante fazer sua divulgação, de forma a manter e construir articulação com as demais experiências, socializando informações, ações, resultados, bem como, trocando sementes e adquirindo novas variedades. Outro elemento importante é que, as sementes crioulas, desenvolvem um conjunto de ações que permeiam as relações e o modo de produção no meio rural. Com isso, não há possibilidade de produzir uma semente limpa, se a propriedade familiar utilizar agrotóxico na produção. Por outro lado, há o comprometimento das famílias guardiãs, com a qualidade de vida no meio rural, produzindo e vivendo de forma sustentável e numa relação harmônica com a natureza. Desse modo, não há como produzir e multiplicar sementes crioulas, sem isso estar relacionado diretamente com a agroecologia.

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Um grande desafio para a continuidade destas experiências tem sido a multiplicação destas ações para outros espaços, de forma a reproduzir um conhecimento milenar e potencializando ações que contribuem para a continuidade da existência de sementes crioulas e da permanência de camponeses/as no meio rural.

Artigo elaborado por:
Elisiane de Fátima Jahn – Educadora Popular do CAMP
Regina Trentin Piovesan – Educadora Popular
Marcio Pielke – Técnico em Agropecuária e Acadêmico em Engenharia Ambiental e Sanitária

Fotos de Erechim e Sananduva do arquivos do CAMP.

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